Abusada na infância, mulher vira policial e prende homem que a estuprou

Tábata (nome fictício) foi sofreu violência sexual desde bem cedo, ela prendeu o homem que a estuprou em uma ação policial, em 2016. O caso se tornou público após uma reportagem feita pela BBC Brasil.

Em 2002, com apenas 9 anos, ela foi estuprada por um fotógrafo próximo da família por dois anos e meio.

Em entrevista à BBC Brasil, ela explica que tomou a decisão de tocar no assunto, com o objetivo de incentivar outras mulheres a denunciar os abusos. “Denunciar e mexer nisso foi um processo de cura”, disse.

Segundo a policial, o homem acampava com sua família, próximo ao rio Uruguai, na divisa entre Santa Catarina e Rio Grande do Sule e aproveitava-se do isolamento e fragilidade dela.

“Logo, ele (o fotógrafo) começou a me molestar. Ele se aproximava e ficava passando a mão em mim. Eu não entendia. Aquilo me incomodava, mas eu não via o caráter criminoso naquilo que ele estava fazendo. Não falei nada para a minha família, até hoje não sei dizer o porquê”, contou à BBC Brasil.

“Certa vez, ele abusou de mim quando ele precisava buscar água (para o acampamento) e me fizeram ir com ele para ajudar a carregar os galões. No caminho, ele se aproveitou para ficar passando a mão em mim, mas eu consegui escapar e correr na frente”, continua. “Meus pais nem perguntaram por que cheguei antes dele. Nem passava pela cabeça dos meus pais que ele pudesse abusar de mim porque confiavam muito nele”.

Segundo Tábata, com a frequência dos abusos, seu desejo era contar para seus pais, mais tinha muito medo. Porém, só entendeu aquilo como crime aos 11 anos.

“Meu pai sempre foi muito estressado, pilhado. Eu tinha medo que ele pudesse matar ele (fotógrafo), ir preso. Começam a passar mil coisas na cabeça de uma criança. E também tem o receio de que seus pais não vão acreditar no que você está passando”, desabafa.

“Ele dizia: ‘Só um pouquinho, só um pouquinho’. Ele nunca me agrediu com tapas, mas me segurava à força, mesmo eu sendo uma menina grande para a minha idade”, lembra Tábata.

A policial, depois de 15 anos, conduziu o abusador algemado ao xadrez. Para ela, a situação representou um “encerramento de um ciclo”. Após a denúncia, a Promotoria descobriu que o homem tinha histórico de abusos e o denunciou por pedofilia. A primeira audiência só veio um ano depois, em 2012.

Tábata também contou à BBC Brasil que o fotógrafo negou as acusações no tribunal. “Eu só li a sentença. Mas ele disse que eu inventei tudo aquilo porque eu queria me vingar dele. Ele dizia que eu fiz aquilo porque meu pai não teria conseguido sair com a esposa dele”, conta.

Ele foi condenado a sete anos e seis meses em regime fechado pelo estupro. A confirmação, em segunda instância, veio no ano seguinte, quando a vítima, já aos 24 anos, terminava seu curso na Academia da Polícia Civil de Santa Catarina. Em dezembro do ano passado, cerca de um ano após ser preso, o fotógrafo saiu da prisão. Ele teve a pena reduzida por bom comportamento e hoje está livre.